
Não adianta! Tem músicas que se tu não ouve 20 vezes seguidas, parece também que não aproveitou o suficiente do que podias interpretar, absorver ou simplesmente curtir. Se meus vizinhos não curtem o repertório do 202, estão perdidos.
Esses dias na intenção de puxar um papo no elevador às 3h da manhã (sim, eu estava bêbado) perguntei à vizinha dos fundos se eu fazia muito barulho. A resposta porém me agradou: “Hmmm, tu ouve Queen, não?!” Fiquei feliz por ter alguém que soubesse soletrar as músicas que ouço, no mesmo andar. Tudo bem, na verdade ela escutou a versão maravilhosa do Bowie para Under Pressure, no show da tour de 2003, que comprei influenciado por uma amiga e adorei, mas valeu mesmo assim, afinal, como ela poderia saber?

Ontem me flagrei assistindo ao programa do Faustão e seu bizarro quadro de patinação no gelo. Totalmente distraído, confuso e sem fôlego de tanto que o apresentador fala – sem quase respirar – me flagrei dando um pulo em minha infância, ao admirar a Cláudia Ohana deslizar pelo gelo da Globo.
Cláudia Ohana, não! Natasha! Cláudia Ohana, não! Isabela Ferreto!
Se hoje em dia eu tenho essa personalidade “vaca” pulsando nas veias, com certeza as musas de minha infância têm culpa no cartório e isso que nem vou citar – pelo menos hoje – a trupe da Xuxa e essas outras estimuladoras de nossas fantasias e bizarrices infantis. Vou citar Cláudia Ohana!
Aquela mulher era, para mim, um mito. Muito branca, magra, super-maquiada, cabelos fartos, lábios vermelhos e má, porém foi frustrante vê-la ao vivo, no Criança Esperança de 1991, na performance de Simpathy For The Devil, vestida num longo vermelho onde deixavam a mostra suas axilas não muito bem depiladas. Sim, com 7 anos eu já tinha uma visão muito apurada do bom senso ao se vestir, afinal eu era um menino de suspensórios e bermudas brancas.
La Ohana me fazia querer brincar de Vamp o dia inteiro e não era todo mundo que tinha saco para os meus roteiros. Só um dos meus amigos. Ai, ai. Aos 7 anos, já sabendo o que queria, entrei então no personagem e fiz com que ele também não quisesse outra coisa.
Anos depois Cláudia voltou como Isabela Ferreto. Essa, sim, era uma vadia do alto escalão. Chiquérrima e muito safada! Tenho até hoje em VHS a cena em que ela era desmascarada no dia do primeiro casamento sendo esbofeteada e derrubada pelas escadas, vestida de noiva. Um luxo. Outra cena, foi quando o José Wilker a pegou dando uma na cozinha e esfaqueou seu rosto, fazendo com que ficasse marcada com uma cicatriz enorme depois. Acho que eu até sonhava naquela época em ser esfaqueado ou derrubado de escadas. Bizarro!
“Please to meet you, hoooooooooooope you guess my naaaaaame…”

Brookeback Mountain definitivamente é um dos “filmes da minha vida”. Sem levantar bandeiras, não lembro de ter visto um filme que escancarasse o amor entre homens, sem que a gente nem perceba que aquilo está acontecendo. Óbvio, como parte desta tribo, me torno suspeito a falar, mas o que realmente importa é o quanto verdadeiro o roteiro se torna quando comparado à realidade.
Eu não acho - e mais uma vez me torno suspeito - que exista no mundo sexualidade definida e, sim, oportunidades de elas se mostrarem. Me divirto com os comentários do tipo “aquele com certeza não é”. Talvez nem seja mesmo, mas prefiro ter os meus pensamentos certeiros de que o tal “ainda não teve a oportunidade de ser”. Me divirto também – e talvez mais ainda – com aqueles que depois se entregarem, dizem “que não são” e eu, claro, também confirmo a minha não homossexualidade afinal, ninguém é.
Ao contrário das cenas fortes de filmes como os de Almodóvar, Brookeback trata o homossexual em sua maneira mais natural: um homem que gosta de outro homem. Me identifiquei com a história, pois aliados à fragilidade e sensibilidade imbutidas em minha personalidade, é notável que ainda resiste um outro instinto agressivo, orgulhoso, independente e inconstante em mim. Um Ennis Del Mar também passou por minha vida e, apesar de muitos planos, é insuportável interpretar tanto num relacionamento. Tenho até medo da hipótese de que seja uma história que resista ao tempo, como a do filme.
Relacionamentos assim são tão bons quanto frustrantes. Hoje, eu diria que de tão excitante, passa a ser perigoso. Como uma briga de touros. Mas é amor em sua forma mais pura.
Ahhhh!







