05.01.2009
Então você quer ser um marchand. Quer trabalhar em uma galeria de arte, receber artistas querendo vender incríveis pinturas, mas não sabe bem como julgar uma obra tosca. Encontrar o horrível, o verdadeiramente e cru da arte tosquista não é fácil. Aqui darei algumas dicas para que você consiga, em uma simples olhadela, dizer se é o que está pendurado na parede é um quadro digno do movimento tosquista ou uma simples (e sem graça) arte naïf ou moderna.
Lição 1 – Manetas
Uma das coisas mais difíceis de desenhar são mãos. Pergunte a qualquer desenhista ou aspirante a artista: mãos são coisas complexas, cheias de dedos e centenas de movimentos diferentes. Mãos expressam muitas coisas, porém artistas do movimento tosquista encontram sempre um jeito de escondê-las para não ter que se dar ao trabalho de desenhá-las. Ou até as desenham, parecendo uma bola de massa de pão.

Observe as mãos dos querubins. Esses pequenos anjinho alados têm bolas de ping-pong no lugar das mãos. O anjo do meio está depressivo porque queria pegar o ramalhete, mas a falta dedos o faz acariciar as folhas com suas manetas cotocas. O querubim do topo está mostrando para os colegas “Ei galera, eu grudei o ramalhete com durex aqui ó, funcionou!”. O querubim enrolado na toalha ( que também não tem pés) está fazendo um gesto obsceno para seu amiguinho. Okay, ele estaria, se tivesse o dedo do meio. Ou qualquer outro dedo.
Lição 2 – Cabelos no rosto
Okay, o sujeito não sabe desenhar mãos e também não sabe desenhar rostos. A única coisa que guia seu pincel (oi trocadilho) são peitos e bundas. Um clássico nas obras tosquista são mulheres com cabelos cobrindo o rosto, sem mãos e pés, mas com peitos enormes, mamilos salientes e bundas desenhadas com compasso. Mulheres sem rosto. Raimundas, Mulher-Camarão, “Cobre essa cara com Travesseiro” etc, etc. Com tufos de cabelo no lugar da cabeça.



Imagino o artista recebendo a modelo em casa: “Isso, fica parada nessa posição. Certo. Mostra os peitos. Arrã. Eu vou colocar essa peruca na sua cara tá bem? É isso mesmo, na sua cara. É uma obra conceitual querida. Você é linda, sério. De verdade. Opa, seu olho tá aparecendo aqui, é pra cobrir o rosto INTEIRO, arruma a peruca. Não quero ver nem a ponta do seu nariz. Tá linda!”
Lição 3 – Fundo e aproveitamento da tela
Muitos artistas toscos não desenham paisagens de fundo na tela. O céu é sempre um azul chapado com nuvens que parecem panos de chão enrolados - a floresta se assemelha a um pequeno montinho de vômito verde e a grama, um tapetão sujo, as pedras, algo que saiu do traseiro de algum animal. E também há “eu não tenho noção de espaço”, ou seja, o artista não sabe medir o tamanho da tela e o objeto pintado se perde em um monte de elementos colocados aleatoriamente, sem harmonia alguma. Essa é a parte mais complexa de se julgar um quadro tosco e exige um olho técnico para se chegar à simples conclusão de: “que p*** é essa?”.
Assim:

Marilda se viu perdida enquanto boiava em pedaços de bife de alcatra em um rio de Curaçao Blue.
Agora você já sabe um pouco mais sobre como analisar obras tosquistas. É um universo vasto e muito rico de material para estudo. Bota vasto nisso. Tem obra tosquista até na parede do meu quarto.
Quero mandar um grande beijo a todos os leitores e desejar um ótimo 2009. Obrigada por acompanhar o Shoe-me, de verdade. O ritmo está um pouco lento aqui nesses dias de festa, mas logo fica normal, prometo.